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A direita e a liberdade

Em Editorial de Pasárgada, O mundo nos mostra, outubro 10, 2010 às 3:51 pm

Reza a máxima histórica da era moderna: a Revolução Francesa garantiu a liberdade e impediu a igualdade; e a Revolução Bolchevique garantiu a igualdade à mercê da liberdade. Desde então, nossa mentalidade parece como que presa entre esses dois extremos existenciais, como se nossas condições pudessem ser definidas em quaisquer par de termos. Não precisa ser assim, mas tem sido.

“Liberdade”, como conceito, vem carregada do arcabouço econômico do laissez-faire, mas, como bem diria Marx, isso aponta tudo: o dilema da “liberdade” aponta, afinal, para o que podemos ou não fazer no Mundo, e, numa área dominada pelo capital, não é de se surpreender que sua carga atual esteja umbilicalmente conectada, afinal, ao poder de compra e venda dos indivíduos e das nações.

Até aí, tudo bem. O problema nosso é quando a situação se torna contraditória demais. Neste mês, a Newsweek lançou uma capa tachando o presidente Nicholas Sarkozy de a nova cara da direita europeia. Mas Sarkozy, tal protagonista desajeitado, é uma manifestação superficial, midiática, de algo que dorme mais profundo.

Enquanto a União Europeia se contorce nos seus dedicados e muitas vezes bem-sucedidos aparatos democráticos para se garantir um meio termo entre 1789 e 1918, partidotes de países menos diretamente determinantes na política internacional dão as caras e mostram todos os paradoxos em torno da defesa, como princípio, da “liberdade”.

Nos Países Baixos, o Partido da Liberdade (PVV) acaba de ser aceito para formar coalizão. Seu líder, Geert Wilders, não simpatiza com a presença do islamismo em solo flamengo. Ele, porta-voz dos portadores da “liberdade”, quer impedir alguém, sob o argumento da religião, de estar em seu solo.

Na Áustria, o homônimo Partido da Liberdade também está angariando votos em eleições provinciais a partir dos medos da população sobre a presença de imigrantes.

E na Suíça a questão, se não se manifesta em Partidos, se manifesta na política helvética de não pertencer à União Europeia e, nos seus avançadíssimos cantões, barrar a construção de minaretes, numa clara sinalização de repulsa aos muçulmanos. Logo a Suíça, esse rico país poliglota, no coração do Velho Mundo, berço do mercado financeiro especulativo do laissez-faire.

Nada disso espanta: só faz abrir os olhos para o quanto enganoso pode ser o da “liberdade” como um princípio total – que, como qualquer outro, não se esgota em si e tenta fechar os olhos e a alma para a realidade, infinitamente mais complexa e viva. Holandeses, austríacos e suíços, “libertadores”, querem é impedir que os outros tenham também essa mesma “liberdade”.

As motivações de muitos desses “libertários” podem ser muito bem honestas: presença mal pensada ou desastrosa de estrangeiros (ou não) que perturba a ordem social. Mas mostra que o discurso da liberdade de nada adianta como um objetivo em si. A “liberdade”, nesses termos, é uma ilusão completa.

 

E o resto não importa

Em Editorial de Pasárgada, Tênis, setembro 15, 2010 às 2:03 pm

Quando Nadal vencia seus primeiros títulos em Roland Garros, ele ficava modesto em seu canto, sem nenhum tipo de exaltação para história – mesmo sendo, em seis anos, pentacampeão, e já fazendo história.

Hoje, poucos dias depois de completar seu Grand Slam, ele permanece na sua, dizendo que Federer ainda é o maior de todos – quando todos querem vê-lo justamente ao menos duvidando disso e pondo alguma chance de ele, um tenista de 24 anos, ser o maior da história.

A questão é que isso nada importa. Sabe-se lá, talvez algum dia algum psicanalista desvende que, lá no fundo, o espanhol quer e sempre quis, sim, ser o maior da história… Mas, ao que tudo indica, isso é absolutamente secundário.

Números por números, a estatística está aí para quem quiser usá-la. Quando Federer alcançou seu 15 Slam, a página da ATP estampou números absurdos, estrondosos. Hoje, ela tem uma tabela que mostra alguns dados em que Nadal é imensamente superior ao suíço.

E Sampras ganhou 14 Slams e é recordista em Wimbledon, mas Agassi fechou o Slam. E Borg foi um monstro na França e na Wimbledon… E… E…

E nada disso importa. E tudo também indica que daí brota a diferença primeva entre Nadal e Federer.

Federer sempre quis ser o melhor. Quando muito jovem, ainda sem grande expressão, era um tenista arredio, irritadiço, que quebrava raquetes porque as coisas não saíam como queria. E ainda hoje, quando perde partidas como o US Open para Del Potro em 2009 ou Wimbledon para Nadal em 2008, diz: “são partidas que eu deveria ter vencido”.

Federer sente que está sempre em débito com a história, achando que seus 16 Slams são pouco – que deveria na verdade ter pelo menos 20. Já Nadal sente que está quase sempre em débito consigo mesmo, não acha que o que fez é pouco – mas sabe que pode sempre melhorar.

Mas Federer, jogando pela história, é individualista: joga centrado em si, sem muitas emoções, e sempre comemora seus títulos chorando, sozinho. Já Nadal, jogando por si próprio, vibra muito, joga com o público e não raro fala da família e comemora com a mesma.

Todos querem que Nadal diga que ele pode um dia ser maior que Federer – mas isso não importa para ele.

Porque “um dia” não significa nada: tudo que significa é “o dia de hoje”. “Um dia” é futuro, que engloba o passado dele, e isso é história. Porque “o dia” é somente o momento do momento, aquilo que somos, mortais e imperfeitos – mas sempre passíveis de aperfeiçoamento.

Eu prefiro, disparado, o estilo de Federer. É mágico, imprevisível. Capricho artístico, beleza suprema. O quase inatingível. Mas quem vê Federer pensa: isso é para Deuses. E desiste: não adiante nem tentar.

Mas eu prefiro, disparado, a postura do Nadal. É dedicada, concentrada, aplicada. Devoção total, crença absoluta. A entrega completa. Quem vê Nadal pensa assim: isso para Titãs. E se inspira: eu posso e devo tentar o meu melhor.

Sempre.

As consequências da liberdade

Em Ciência, Editorial de Pasárgada, Educação, julho 28, 2010 às 3:02 pm

Wittgenstein disse, sem querer dizer nada de novo, que existem dois grupos de frases – as frases com sentido, que podem ser verdadeiras ou falsas, e as frases sem sentido, às quais os conceitos ‘falso’ e ‘verdadeiro’ não se aplicam. Quando o afirmou, Wittgenstein pôs mais uma pedra no muro complexo e por vezes torto da história do conhecimento humano, jogando a favor do empirismo readical. Mas ao determinar que só têm sentido as frases cujos componentes descrevem coisas do mundo real, ele não estava necessariamente querendo estirpar do nosso vocabulário as palavras de conteúdo não-empírico, mas, sim, defendendo uma restrição absoluta no seu uso – pelo menos no seu uso na ciência.

Este filósofo é muitas vezes visto como um dos precursores do fim da metafísica, mas creio que ele passa longe disso. O fim da metafísica está sim em jogo nos papeis de Wittgenstein, mas não no sentido de sua morte, mas no de seu deslocamento. É similar a Heidegger, que nunca se propôs a aniquilar a metafísica, mas, antes, discursa sobre as suas mutações. O próprio fato, aliás, que a Metafísica possui um caráter essencialmente dúbio em Heidegger (ora como aquilo que é mais sagrado e humano, ora como aquilo que é responsável pela aniquilação do ‘Ser’) prova que ela está nele e depois dele mais viva do que nunca.

O que ocorre em ambos – em de modo mais claro em Wittgenstein – é um deslocamento do conteúdo metafísico da linguagem do mundo externo para o mundo interno. Todos temos perguntas, sensações, ideias, medos que não são empíricos (o próprio pensamento, em alguns aspectos, não o é), e não podemos estirpar esses conteúdos da nossa vida – mas podemos, e devemos, se seguirmos essa linha de pensamento, estirpar estes conteúdos e suas respectivas palavras da nossa linguagem comum, isto é, quanto mais universal for a nossa ambição, quanto mais ‘objetivo’ forem nossos objetivos, mais devemos apenas nos referir ao mundo das coisas que fazem sentido.

Aqui, Wittgenstein retoma e antecipa muito do arsenal do cientificismo contemporâneo que tomou conta, seja para o bem ou para o mal, de muitas esferas, e é por isso que sua distinção é de vital importância. É importante porque, em suas consequências, ela põe em xeque a interface necessária entre a filosofia da linguagem e da ciência e a filosofia ética, que em muitos aspectos é, hoje em dia, a filosofia da liberdade.

Existe um componente eminentemente libertário nos defensores da linguagem objetiva. Eles argumentam que é um assalto forçar alguém a entender conceitos que, de tão complexos que são (o maior deles é ‘deus’), acabam sendo, na verdade, incomunicáveis. Isso, dizem, gera problemas de comunicação, que, em esferas de poder, se transforma em sujeição, abuso e dominação. Com isso, até certo ponto, concordariam Marx e Weber. Quem defende uma linguagem mais limpa, defende também uma comunicação mais limpa (que é o rumo tomado por Habermas depois de se sentir cansado com o marxismo).

Um dos exemplos mais simples desse pensamento é a visão de Dawkins, que qualifica como uma agressão ensinar religião a crianças. As crianças, argumenta, são jovens demais para entender conceitos e sensações necessariamente mais elaborados como ‘deus’, de modo que forçar-lhes uma doutrinha religiosa, qualquer que seja, qualifica algo como um estupro epistemológico. Note-se que Dawkins não está negando a pergunta sobre se Deus existe, mas sim defendendo que ela não pode ser ensinada – e muito menos respondida – de cima abaixo.

O que Dawkins faz com a religião é similar ao que Wittgenstein faz com todos os conceitos não-empíricos. Eles propõem uma interiorização dos conceitos ‘subjetivos’, propõem que tais conceitos (dos quais não podemos abdicar) imigrem para dentro de nós e não afetem discussões nos quais não podem ser úteis. Eles estão, de um certo modo, confinando esses conteúdos indizíveis à poesia, à vida pessoal, no máximo interpessoal e familiar, e evitando que eles determinem – invariavelmente de modo injusto – a vida social, massiva, global.

Esse é o objetivo, como eu o vejo, da filosofia da liberdade proposta pela ciência moderna. Uma tentativa perene de tornar nosso pensamento, nossa linguagem e nossa metafísica coletiva mais serena, mais e mais compreensível e, consequentemente, mais justa. Abdicar de conceitos abstratos em esferas sociais, políticas e epistemológicas foi, por exemplo, um elo comum entre três pensadores totalmente revolucionários do século XIX que trataram de provar a limitação do nosso pensamento e de nossos conceitos. Darwin nos recoloca na história do mundo e atesta nosso lugar na evolução da natureza como mais um ser entre muitos outros – talhou nossas ilusões universalistas da humanidade. Nietzsche martelou abaixo o prédio dos conceitos externos dotados de sentido algum e tornou a verdadeira filosofia a busca daquilo que nós queremos e acreditamos – interiorizou a esfera dos ‘conceitos não empíricos’ e negando falatórios abstratos. Freud atentou para nossa impotência epistemológica sobre nós mesmos – se sabemos tão pouco sobre nós, talvez devamos admitir que sabemos muito pouco sobre o mundo igualmente.

Mas, de outro lado, a liberdade preconizada pela ciência também é culpada, no decurso da história, pelo surgimento de movimentos grotescos e totalmente opressores. Isso foi claramente exposto pela obra Adorno em sua crítica à desmistificação do mundo. Trata-se de um ponto importantíssimo, a saber, quais são as consequências da liberdade para a sociedade? Isto significa pensar se a sociedade está pronta para ser livre e aceitar um conceito complexo de liberdade que acarrete todas as consequências assustadoras de Freud, Darwin e Nietzsche.

Estamos, afinal, prontos para lidarmos individualmente com a liberdade, como tanto questionou o existencialismo, que fugiu da discussão com medo dela e da liberdade total? Estamos prontos e saberíamos lidar com um mundo que não nos provenha com respostas prontas como o professor de religião o faz?

Os fenÇomenos do totalitarismo, seja ele político ou econômico ou midiático, mostra que, em grande parte, não estamos. Mas negar a liberdade lançada pela ciência moderna como um mal à civilização me parece um desconhecimento da própria ciência. Quem já teve boas aulas de Física e Matemática aprender que estas disciplinas não querem o ‘fim da subjetividade’. Quem já teve bons professores de Astronomia sabe que não se trata de aniquilar o poético, o humano.

Há uma ética fortíssima por trás do ideal da Ciência. O grande desafio das consequências da liberdade passa por saber se posicionar nesse novo mundo, sabendo respeitar o lugar de cada um nele. Trata-se de algo tão complexo, tão grande e tão importante que a boa ciência prefere não o colocar em tratados gerais de conduta, mas ensiná-lo um a um, aos poucos.

A metafísica pode e irá sempre existir, sem com isso se tornar um código de conduta ou de guerra.

A profissão do esquecimento da fé

Em Editorial de Pasárgada, Sobre o jornalismo e os jornalistas, julho 17, 2010 às 9:51 pm

Após muitos meses, anos, de dedicação àquilo que considerava metafisicamente o mais certo, morri, e começo a escrever, um pouco que seja, mas honesto que seja, para provar a mim mesmo que voltei a viver.

Muitas pessoas me ajudaram nisso. Uma delas, a que mais me irritou e ao mesmo tempo me fez amar, e amar meus defeitos, foi embora faz pouco.

Será que ela volta. E se sim, me pergunto como. Como tudo isso vai ficar.

Seja como for, ‘tudo’ precisa de reformulação. ‘Tudo’ será remanejado. Em nome da retomada da minha profissão de fé naquilo que sempre acreditei.

Dia desses, abrindo um Joseph Roth, cometi a impáfia de dizer ‘mas isso não é jornalismo’. Resolvi fazer de mim uma notícia, quando esqueci que o mais importante é a história. A história é a vida. A notícia é o produto.

Roth, me perdoa. Vai aí uma citação que é um pedido de desculpas.

“Tímidas e empoeiradas nascerão as gramíneas do futuro entre trilhos de metal. A ‘paisagem’ adquiriu uma máscara de ferro.”

Amém.

É ainda só diplomacia, mas

Em Editorial de Pasárgada, março 3, 2009 às 11:00 am

Um dos grandes desafios do jornalismo internacional é distinguir entre o fato real e o fato diplomático. Esse é um dos debates centrais das teorias de Relações Internacionais: o quanto a conversa amigável entre Estados representa, de fato, a vontade de compartilhar poder e compromisso sobre a ordem do mundo – ou o quanto encontros e declarações são mera retórica, voltada tão somente para os interesses próprios daquele país que a pratica.

Seja como for, a notícia, tornada central nesta-terça feira, de que Barack Obama enviou uma carta ao governo russo para debater o programa nuclear como forma de abrir diálogo com o Irã é uma novidade no plano diplomático estadunidense. A proposta inclui cancelar a construção do alardeado escudo anti-mísseis na Europa Oriental, um programa de ideologia congelada de uma guerra-fria existente só na cabeça daqueles que ainda vêem o mundo como ele era antes de 1989.

Na mesma semana em que a União Européia libera uma mesada gorda, em euros, para a reconstrução da Faixa de Gaza, medida que beira à incompetência diplomática, Obama pelo menos, em sua carta, dá sinais de caminhar numa direção mais pragmática para o encontro de soluções no Oriente Médio. A situação lá é tal, além de um capitalismo puro, que a cooperação e a participação na tomada de decisões vale mais que mil notas.

Deeper Underground

Em Editorial de Pasárgada, março 2, 2009 às 11:19 am

Não me lembro de quem é esta música, mas ela aponta o sentido de de duas notícias importantes desta segunda feira.

A primeira é a da rejeição, por parte da cúpula da União Européia, de um pedido de ajuda financeira à econoia do Centro e do Leste europeus. O A proposta foi encabeçada pelo líder húngaro, o sr. Gyurcsany, e negada pela alemã, a sr. Merkel.

A segunda é do relatório liberado por um instituto suíço da tendência À “desaceleração global”. O foco do alerta recai sobre as economias emergentes, mostrando que países China e Coreia deverão mostrar (aliás, já o fazem) queda substancial no crescimento.

São duas notícias que vão, aos poucos, clarificando o efeito da crisse sobre a ordem mundial. A questão que fica é: Se os países em emergência também estão sendo profundamente afetados, isso diminui ou aumenta o seu papel na reorganização do mundo?

Eu chutaria positivamente. Talvez o fato de estarmos todos enredados no mesmo barco impeça que as empreas, ávidas por lucro imediato, fujam do problema (outrora somente localizado no mundo desenvolvido) em direção a paraísos artificiais (do mundo em desenvolvimento).

27jan09

Em Editorial de Pasárgada, janeiro 28, 2009 às 1:10 am

Estado de SP: Multinacionais anunciam 86 mil demissões pelo mundo

Clarín: Prorrogan el pago de impuestos al campo por la sequía

Washington Post: Layoffs Cut Deeper Into Economy

Le Monde: La motion de censure socialiste rejetée par l’Assemblée

FAZ: John Updike gestorben

Mais que o esperado

Em Editorial de Pasárgada, novembro 27, 2008 às 11:31 am

Mais de três quartos dos participantes do referendo groenlandês votou a favor de uma crescente independência em relação à Dinamarca. Entre as revivindacações estão uma maior participação nos lucros obtidos junto à extração de petróleo e também o estabelecimento do groenlandês como língua oficial da ilha. Colonizada em 1775 pelos dinamarqueses, a Groenlândia tornou-se em 1953 província e em 1979 ganhou status de região semi-autônoma.

Do Spiegel.

Namminersorneq

Em Editorial de Pasárgada, novembro 25, 2008 às 12:31 pm

Ou: auto-governo. É sobre isso que cerca de 40 groenlandeses opinarão hoje. Trata-se de um referendo que encaminhará, se vencido, a discussão da dependência à Dinamarca, que colonizou a gélida ilha há uns 300 anos.

Matéria do IHT aponta o quanto a Groenlândia (ou Terra Verde, nome muito melhor, em inglês) é um país singelo. 60% da população vive em seis cidades. No total, são 56 mil habitantes da ilha, que tem 80% do território congelado.

A economia local é dependente basicamente de recursos naturais. Eles devem também, mais que outros, sentir na pele efeitos do aquecimento global.

Nos poucos sites de jornais locais que entrei, não encontrei referência ao referendo. Talvez nem isso aqueça o debate lá.

Sentimento de mundo

Em Editorial de Pasárgada, novembro 21, 2008 às 2:37 pm

Entrei em contato com a figura deste deus, Swiatowid, quando estava visitando Cracóvia. Vi-o ao pé do castelo desta cidade. Mas ele não é muito popular: em formato de coluna, fica postado num pequeno canteiro, na verdade escondido por uma pequena árvore. Não há placa alguma. Quem passa por ali mais se interessa em se apressar à escadaria que leva à residência real cracoviana.

A única atração ao lado de Swiatowid é uma daquelas placas mundiais, daquelas que carregam em si umas 30 setas apontando para cidades de todo o globo.

Swiatowid (lê-se: SHVIATÔVID) vem de swiat (SHVIAT), mundo em polonês. Sua estátua compõe-se um corpo normal, encabeçado por quatros faces, voltadas para os quatro cantos do mundo. Um guardião, visionário, observador da Terra.

Isso me serviu de mote para este blog e, de certo modo, para as coisas que mais têm me interessado ultimamente. Para pôr em termos, trata-se de um misto entre jornalismo, relações internacionais e ciências da cultura. E a idéia principal é conseguir, através de um acompanhamento aqui no blog, passar a exercitar melhor uma compreensão de mundo. Pois gosto muito de notícias internacionais, gosto de conseguir sentir e acompanhar os acontecimentos numa dimensão bastante ampla, não importa o tipo de editoria que seja.

Mas isso não é fácil. Ler mil notícias desde a eleição na Venezuela, passando por construções milionárias em Kuala Lampur e desembocar em contratos de imagem de Angelina Jolie é fácil. Agora, como disse um professor que às vezes admiro muito, “o mais difícil são as conexões”. Conectar, construir um sentido deste amontoado absurdo de fatos que se jogam à nossa cara é um dos maiores desafios que batem à minha cara neste mundo de noticiamento global, mas de pouca compreensão de mundo. Isso não reside na incompetência das pessoas, mas na dificuldade hipersensitiva da tarefa.

É com esse objetivo que tentarei construir este espaço aqui. Vamos ver no que vai dar.

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