transtaganas@

Arquivo da categoria ‘Os limites do meu Brasil’

As nuvens dos próximos quatro anos

Em Os limites do meu Brasil, Sobre o jornalismo e os jornalistas, agosto 30, 2010 às 9:25 am

Ainda faltam boas semanas para as eleições, mas há muito pouco a ser decidido nelas. A menos que caia uma bomba ética de proporções nucleares, Dilma será eleita. Ninguém apostou que seria tão fácil, sobretudo com esta provável decisão em um turno. Se a vitória de Lula em 2002 foi algo grande (e foi), e sua reeleição de 2006 algo histórico (e foi), o que dizer desta performance da petista?

Não há palavras. Todos estão boquiabertos: a população brasileira, boba de felicidade com os índices econômicos; o PSDB e seus afiliados, sem ação. Mas o que mais me preocupa é o estarrecimento do jornalismo que simplesmente não consegue questionar substancialmente os intricadíssimos dilemas e desafios por que nosso País, dado seu curso recente, passará em breve, muito em breve.

Eu votei em Lula em 2002, e não me arrependo. Em 2006, me abstive e votei nulo. Em 2010, irei de Serra, mas a contragosto. Porque o governo do PT apresentou sérios problemas, e a oposição do PSDB não conseguiu se ordenar basicamente para nem sequer ameaçar a candidatura de Dilma de modo minimamente inteligente e/ou eficaz.

Politicamente, o retrato que se desenha dessas eleições é impressionante e triste, mas compreensível. A economia é um fator absolutamente determinante, sobretudo numa sociedade em que quase tudo se reduz a o que custa e vale.

Há basicamente três fatores para o esmagador sucesso petista: 1) Lula herdou a matriz econômica de FHC, amadurecida (com falhas) por este por uma época difícil; 2) Lula pegou um ótimo momento da economia mundial; 3) Lula deu dinheiro à população. E acertou em todos.

Não é à toa que seu índice de aprovação esteja nas alturas. Mas daí para sentenciar-se tacitamente que o Brasil está num rumo onde tudo são rosas, é outra história. Exemplo: uma recente pesquisa apontou que 78% da população brasileira considera o governo bom ou ótimo: mas que pesquisa é essa que larga num mesmo balaio o bom e o ótimo? Por acaso, no colégio, ótimo (9-10) é o mesmo que bom (7,5-8,9)?

Entendo que a vida cotidiana tenha melhorado muito para grande parcela da população, e isso justifica a eleição de Dilma – não há dúvidas. O que contesto é a incapacidade geral que noto, sobretudo em jornais e revistas, de contestar inteligentemente o quadriênio vindouro petista. (Fosse pessedebista, a dificuldade seria ainda maior, e a tarefa, não menos urgente.)

A primeira questão que me vem à mente é o crescimento da economia. Através da expansão do poder aquisitivo da população, formamos uma economia interna com um potencial de compra e giro de capital imenso. Mas muitos economistas já avaliaram que nosso país não suporta esse crescimento de 7% – assim como o da China, de 10% e pedradas, também é ilusório.

O crescimento econômico, por sua vez, oculta diversas questões. “Anti-capitalistas”, a “esquerda” petista fez foi transformar nosso país (ainda mais) num receptáculo de produtos produzidos aqui, com a nossa mão de obra – mas o cuja autoria não é nossa. Claro que há exemplos de empreendimentos nacionais, mas, nesse sentido, o Brasil segue uma colônia.

Também por trás desse mascaramento se apresentam os perigos de uma cultura consumista, na qual, através da evolução do crédito, casas das zonas mais pobres do país, que tanto precisam de segurança, saúde e educação, tem aparelhos eletroeletrônicos de última geração, os quais podem ser postos fora a qualquer momento, gerando lixo, torrando dinheiro, até que o modelo próximo ano apareça.

Há mil outros desafios. Mas esses, os mais lógicos, nem foram tocados pela oposição – porque é algo com que ela mesma nem saberia lidar. Ao contrário, Serra inventou ataques esdrúxulos, evocando Farcs e etc. Tudo parece bom e ótimo, mas a conjuntura indica que a tarefa de Dilma será muito delicada – e agora, não teremos mais Lula como nosso hábil articulador político-popular-institucional.

Estado-Maior para um Problema-Ainda-Maior?

Em O mundo nos mostra, Os limites do meu Brasil, agosto 25, 2010 às 9:07 pm

Lula sancionou nesta quarta-feira o projeto de lei que cria o Estado-Maior das Forças Armadas. O objetivo é ampliar os poderes do Exército nas tarefas de prisão e vasculhamento de pessoas na fronteira brasileira.

Ninguém duvida que fronteiras representam um desafio para o Brasil, que tem tantos milhares de km (do Sul ao Norte da América Latina), em regiões tão diversas (desde o Pampa gaucho até a floresta amazônica) e recheado por desafios tão diversos (desde índios que vêm buscar a sorte em cidades como Porto Alegre até tráfico de drogas e exploração ilegal de recursos naturais).

Mas me pergunto sobre o modo como isso foi decidido: não se optou pelo aprimoramento do modelo já existente, mas pela criação de um novo e complexo aparato burocrático, que contará com novos cargos. Me pergunto, também, que tipo de tensão hierárquica isso poderá gerar na fronteira.

No anúncio da medida, Lula fez referências à sua filosofia de que “o Brasil não pode se apequenar.” Acho que poucos discordariam que o nosso País, para o bem da população e para o bom funcionamento do continente, precisa enfrentar maior responsabilidade na questão, mas se trata de uma questão extremamente delicada, sobretudo porque afeta pontos remotíssimos do Brasil, dos quais a população sul-sudeste-costeira pouco sabe.

Para um pouco mais:

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4642371-EI7896,00-Lula+sanciona+lei+que+da+poder+de+policia+para+Forcas+Armadas.html

O que vale o vale-matemática?

Em Educação, Os limites do meu Brasil, agosto 23, 2010 às 4:18 pm

Já há alguns dias rodou o Brasil a notícia da criação de uma bolsa de reforço de matemática para alunos do ensino fundamental de escolas paulistas. O projeto é encabeçado pela Secretaria de Educação de SP, com o apoio de mais algumas instituições (ver link abaixo).

A ideia é simples: alunos ganharão R$ 50 de presente para frequentar as aulas de reforço, duas vezes por semana, 90min cada. Professores também receberão um extra, proporcional aos alunos envolvidos no reforço. E há uma terceira modalidade desse bolsa-matemática, na qual alunos do ensino médio receberão uma bolsa de R$ 115 para serem tutores dos bolsistas.

Um programa assim suscita discussões à lá bolsa família: alguns enxergam como solução, outros como vergonha. Mas, tal qual a sócio-econômica, a questão da educação, no Brasil, é complexa e merece ser avaliada com mais apreço e dedicação.

Eu sou contra ao bolsa-matemática: se fosse um diretor de escola, ele, como está posto, não seria aplicada. Mas vou apresentar algumas razões por que considero a existência dele, no geral, como algo bastante positivo:

1) O argumento que diminui o projeto por ele conceder dinheiro esquece o fato que a remuneração é e sempre foi um incentivo a empreendimentos intelectuais. Em muitas boas escolas, ocorre de bons alunos receberem bolsas por bons resultados. (Ponto a favor.)

2) Mas quem, sabe, então, o bolsa-matemática deveria ser dado àqueles que se interessam e obtém um bom desempenho? Ou, num mundo ideal, a aulas extras para extrapolar o que é dado em sala de aula. (Ponto contra.)

3) Mas a realidade matemática brasileira é das piores do globo, logo não faz sentido começar pelo topo, mas sim pela base da pirâmide. Mais que isso: a bolsa se destina ao ensino fundamental, que é onde o bolo dos números se sedimenta e cresce – ou titubeia e desanda. (Ponto a favor.)

4) Por fim, a parte do programa que incentiva alunos a ensinar é extremamente positiva. Não vejo nenhum problema nela. (Ponto a favor.)

Resta ver os resultados.

Para mais alguns detalhes:

http://portalexame.abril.com.br/economia/noticias/sp-pagara-r-50-aluno-fizer-reforco-matematica-587548.html?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.